Caminho de voltar

Aprendemos que o caminho se faz andando em frente, mas na verdade muitas vezes só se consegue fazê-lo voltando para trás. Há uns dias fui percorrer um pequeno trilho em direcção a uma queda de água, com o principal objectivo de fotografar a luz e as cores do outono. O percurso de ida foi agradável pelo silêncio, apenas preenchido pelo chilrear dos pássaros, pela companhia do curso de água e pela sempre boa sensação que é atingir um objectivo. Contundo, esperava cores de outono mais vibrantes e não tons de castanho a gritar a seca. O caminho de voltar pemitiu-me saborear a paisagem com uma nova luz e conseguiu preencher-me o coração. Foi exactamente o mesmo trilho, mas possivelmente os meus olhos estavam mais preparados para contemplar a natureza, tal como ela é. Demorei mais tempo a regressar, estive mais tempo simplesmente parada a admirar a envolvência e a procurar capturar da forma mais fiel possível estes breves momentos. Lembrei-me que na vida, por vezes, é preciso retroceder uns bons passos para que sejamos inundados por alguma claridade e possamos dar o real valor não só ao presente, mas ao próprio passado. Só olhando para trás é possível recordar conscientemente as maravilhas com que vamos sendo presenteados e, assim, caminhar confiadamente em direcção ao futuro

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Amar um mundo perfeitamente imperfeito

“He looked around, as if he was seeing the world for the first time. Beautiful was the world, colourful was the world, strange and mysterious was the world! Here was blue, here was yellow, here was green, the sky and the river flowed, the forest and the mountains were rigid, all of it was beautiful, all of it was mysterious and magical, and in its midst was he, Siddhartha, the awakening one, on the path to himself.”

{Hermann Hesse, Siddhartha}

Contrariar a ferocidade dos dias

Desde que o tempo é tempo, que o dia tem 24h, cada hora 60 minutos e cada minuto 60 segundos. No entanto, parece que com a idade vamos perdendo a capacidade de saborear plenamente toda esta realidade na sua verdadeira extensão. Vamos sendo contagiados pela ferocidade que o mundo actual e o seu fascínio pela produtividade económica nos impõem, ficando perdidos no meio de correrias, numa sucessão de aconteceres que deixamos irem-se desenrolando. Perdemos o agora numa tentativa inglória de prepararmos o melhor possível a vida que projectamos para um outro amanhã, que se projecta sempre cada vez mais longe.

Tenho vindo a aperceber-me que esta ferocidade me tem consumido um pouco, me vai roubando a capacidade de me maravilhar com o extraordinário no ordinário e me torna impaciente, incapaz de respeitar os ritmos naturais da vida. A melhor maneira de contrariar esta tendência é através do despertar dos sentidos para a beleza do que me rodeia. Sento-me ao fim do dia na varanda e deixo que os suaves pores do sol de verão me ensinem qual a verdadeira velocidade que deve reger a minha vida, a velocidade que me permite abrir os olhos à contemplação e à acção de graças, a velocidade que me permite saborear o momento do agora, esperando serenamente pelo momento seguinte.

“Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus” 

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Tempo, tempo, tempo

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Guardo com algum saudosismo a memória das nossas férias passadas em família pela Europa fora. As saídas de madrugada, ainda bem antes do sol se levantar, mas com a energia de quem tinha dormido uma bela noite de sono. As bandas sonoras que nos entretiam ao longo de muitas horas seguidas de carro. O explorar descomplicado dos limites das nossas zonas de conforto. O caminhar em direcção ao desconhecido, sem planos traçados, nem horários rígidos, com a total liberdade de ir desvendando o caminho. As visitas a todas as igrejas que apareciam pelo caminho, sempre a agradecer pelas oportunidades extraordinárias com que éramos presenteadas. As paisagens fantásticas que os nossos pais nos ensinaram a admirar. O viver o presente no tempo certo, sem estar com preocupações projectadas para o futuro, nem a remoer um passado que já não é possível mudar. E, sobretudo, a certeza e o conforto de ter ali comigo e a viver aquele presente quatro das pessoas mais importantes da minha vida. O tempo que os meus pais investiram nestes momentos é das maiores lições e das maiores dádivas que alguma vez podiam ter dado.

A vida foi-me ensinando que o tempo que passamos com os outros, não é um “gasto”, mas sim um investimento e a memória destes momentos reforça esta ideia. Só é possível cimentar relações conhecendo a outra pessoa e, para isso, temos que nos dispor a utilizar o nosso tempo para tal. Num mundo em que, muitas vezes, parece que não somos mais que pequenas formiguinhas a correr de um lado para o outro atarefadas, oferecer o nosso tempo a alguém é uma dádiva preciosa e um exercício de altruísmo.  A verdade é que, na vida de relação, sempre que nos arriscamos a semear, colhemos algo. Pode não ser no tempo que esperamos, nem na forma como pensamos. O mais importante acaba por ser ir fazendo caminho e aproveitando estes momentos e estas companhias que ele nos oferece, explorando ao máximo o infinito temporal que se esconde nestes gerúndios temporais.

“Tempo a gente tem
Quanto a gente dá
Corre o que correr
Custa o que custar”

{Rodrigo Amarante}

Toda a esperança num ponto de Luz

Este ano tive o privilégio de poder contemplar diferentes céus estrelados: 6 países, 3 continentes, 2 oceanos… Sempre que me permiti admirar a escuridão da noite, acabei por me deixar preencher pela consciência da pequenez dos meus problemas, das minhas dúvidas ou ansiedades, em contraste com a grandiosidade do infinito dos céus. Aperceber-me que para o céu também eu sou um ínfimo ponto de luz, mas que mesmo assim sou parte integrante deste cosmos, afasta-me dos pensamentos negativos centrados nos meus problemas e preenche-me de uma gratidão imensa por tudo aquilo que sou e tenho.

Acabei a semana passada a desafiar-me em algo que nunca tinha experimentado, um trail nocturno. A corrida tem-me ajudado a exercitar o trabalho por objectivos: decido que vou correr x km e, portanto, independentemente das dificuldades que possa sentir, se traço isso como objectivo, vou ter que o alcançar, desistir não é opção. Tive a sorte de ser noite e da escuridão das montanhas pôr em destaque um céu deslumbrante. E, por isso, esta “simples” corrida acabou por se transformar não só na exploração dos limites da minha resistência, mas também num exercício de acção de graças. Para mim, olhar para o céu e admirar cada ponto luminoso é lembrar-me da presença constante de Alguém bem maior que eu e é encher-me da certeza que tudo aquilo que está para vir certamente é bom. E, com esta consciência, não há limites àquilo que eu possa alcançar.

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Conta as Estrelas do Céu

Na segunda-feira aproveitei uma longa conversa ao telefone para me deitar no chão do quarto com a cabeça para a varanda, a olhar para o céu. Numa primeira olhadela apenas se evidenciaram as luzes dos aviões. Mas tinha tempo, até estava uma noite confortável, com um vento morno, por isso, deixei-me estar a contemplar mais um pouco. Com o habituar dos olhos à escuridão, foi-se tornando evidente que, mesmo num ambiente repleto de poluição luminosa, consigo encontrar um céu estrelado. A única condição necessária para isso é de parar e dar tempo para que o aparente invisível se torne visível aos meus olhos. É impossível não continuar com um paralelismo para a minha vida e pensar na imensidão de coisas que me passam despercebidas, só porque vou demasiado rápido e me descuido na minha capacidade de admirar o que me rodeia. Ou nas inúmeras vezes que me deixo começar afundar numa espiral de negativismo e me esqueço de ir à procura destes pequenos e subtis pontos luminosos. Olhar para o céu e procurar estrelas ajuda a sonhar com a liberdade total de um pássaro, sem pensar em problemas nem contratempos, com toda a esperança e confiança do mundo.

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Nascer todas as Manhãs

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Apesar da idade, não me acostumar à vida. Vivê-la até ao derradeiro suspiro de credo na boca. Sempre pela primeira vez, com a mesma apetência, o mesmo espanto, a mesma aflição. Não consentir que ela se banalize nos sentidos e no entendimento. Esquecer em cada poente o do dia anterior. Saborear os frutos do quotidiano sem ter o gosto deles na memória. Nascer todas as manhãs.

Miguel Torga, in “Diário (1982)”