Perpétuo Movimento

É interessante a experiência de estar parado enquanto tudo à nossa volta é movimento. Sentada numa cadeira de aeroporto, à espera de um voo de ligação, ocupei parte do meu tempo a analisar esta dinâmica. Um corropio de pessoas foi-se movendo à minha frente: algumas com um destino claramente definido, outras com um ar mais perdido; algumas a alta velocidade, outras com um passo mais lento; umas com expressão de felicidade e tranquilidade, outras parecendo mais ansiosas e preocupadas. Mantive-me quieta, meia imune a todo este frenesim, mas apreciando-o. Há alturas em que a vida nos pede muita actividade e muito movimento. Há alturas em que a vida nos consome o tempo e avança a alta velocidade. E há outros momentos em que nos convida a estar mais resguardados, a saborear internamente o desenrolar do tempo, em atitude de contemplação e de reorganização interior. E todos estes momentos compõe a maravilha que é viver, tanto os momentos de reboliço, como os de tranquilidade. Tanto os momentos de certezas bem definidas, como aqueles tão indefinidos que parecem pintar um arco-íris de cinzentos. Tanto os momentos em que o nosso coração saltita de alegria e energia, como os momentos em que somos habitados por uma nuvem negra. A única certeza que nos pode servir de guia é que a vida se move por ondas e tudo passa, só precisamos de a deixar desenrolar-se, respeitando a velocidade certa de cada momento.

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“Inserir destino final”

Lembro-me das nossas viagens em família pela Europa fora, numa época ainda pré-GPS, guiados apenas por mapas e por indicações nas estradas. Não me recordo de termos andado verdadeiramente perdidos, mas lembro-me de, por vezes, darmos umas boas voltas até chegarmos ao local pretendido. Na semana passada, confiei no meu GPS para me guiar até um sítio para mim desconhecido. Claro que o obriguei a recalcular o percurso várias vezes e acabei por dar mais umas voltinhas que as necessárias. Mas não andei perdida, tinha o meu destino bem traçado, sabia onde queria chegar. A nossa vida não foge a este esquema. Se tivermos o nosso horizonte bem definido e mantivermos os olhos nele focados, não há forma de nos perdermos. Podemos andar às voltas, sentirmo-nos absorvidos e afogados pelas complexidades dos inúmeros problemas com que somos confrontados diariamente, mas há uma linha condutora que nos guia e que nos pode ir sempre aproximando daquilo que queremos para a nossa vida, mesmo que por vezes tenhamos a sensação que andamos bem distantes dela. Enquanto crianças acreditamos que essa linha é formada pelos nossos sonhos, ao crescermos envergonhamo-nos desta nossa capacidade de sonhar e passamos a chamar-lhe valores e objectivos de vida. No entanto, parece-me que se nos agarrássemos mais à ideia de sonho, mais facilmente acreditávamos na possibilidade do impossível e colocaríamos menos barreiras a trabalhar por aquilo que queremos ver projectado no nosso amanhã.  É imperioso continuarmos a questionarmos-nos frequentemente e sem medo sobre qual o destino que queremos inserir no nosso GPS, pois vai ser ele que vai nortear as nossas decisões e vai dar sentido aos nossos investimentos de tempo e de energia. E, sobretudo, vai dar significado aos caminhos que tivermos que percorrer, por vezes mais longos ou mais difíceis que o esperado, mas sempre guiados pela chama de um sonho que nos pertence.

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Caminho de voltar

Aprendemos que o caminho se faz andando em frente, mas na verdade muitas vezes só se consegue fazê-lo voltando para trás. Há uns dias fui percorrer um pequeno trilho em direcção a uma queda de água, com o principal objectivo de fotografar a luz e as cores do outono. O percurso de ida foi agradável pelo silêncio, apenas preenchido pelo chilrear dos pássaros, pela companhia do curso de água e pela sempre boa sensação que é atingir um objectivo. Contundo, esperava cores de outono mais vibrantes e não tons de castanho a gritar a seca. O caminho de voltar pemitiu-me saborear a paisagem com uma nova luz e conseguiu preencher-me o coração. Foi exactamente o mesmo trilho, mas possivelmente os meus olhos estavam mais preparados para contemplar a natureza, tal como ela é. Demorei mais tempo a regressar, estive mais tempo simplesmente parada a admirar a envolvência e a procurar capturar da forma mais fiel possível estes breves momentos. Lembrei-me que na vida, por vezes, é preciso retroceder uns bons passos para que sejamos inundados por alguma claridade e possamos dar o real valor não só ao presente, mas ao próprio passado. Só olhando para trás é possível recordar conscientemente as maravilhas com que vamos sendo presenteados e, assim, caminhar confiadamente em direcção ao futuro

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Contrariar a ferocidade dos dias

Desde que o tempo é tempo, que o dia tem 24h, cada hora 60 minutos e cada minuto 60 segundos. No entanto, parece que com a idade vamos perdendo a capacidade de saborear plenamente toda esta realidade na sua verdadeira extensão. Vamos sendo contagiados pela ferocidade que o mundo actual e o seu fascínio pela produtividade económica nos impõem, ficando perdidos no meio de correrias, numa sucessão de aconteceres que deixamos irem-se desenrolando. Perdemos o agora numa tentativa inglória de prepararmos o melhor possível a vida que projectamos para um outro amanhã, que se projecta sempre cada vez mais longe.

Tenho vindo a aperceber-me que esta ferocidade me tem consumido um pouco, me vai roubando a capacidade de me maravilhar com o extraordinário no ordinário e me torna impaciente, incapaz de respeitar os ritmos naturais da vida. A melhor maneira de contrariar esta tendência é através do despertar dos sentidos para a beleza do que me rodeia. Sento-me ao fim do dia na varanda e deixo que os suaves pores do sol de verão me ensinem qual a verdadeira velocidade que deve reger a minha vida, a velocidade que me permite abrir os olhos à contemplação e à acção de graças, a velocidade que me permite saborear o momento do agora, esperando serenamente pelo momento seguinte.

“Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus” 

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Tempo, tempo, tempo

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Guardo com algum saudosismo a memória das nossas férias passadas em família pela Europa fora. As saídas de madrugada, ainda bem antes do sol se levantar, mas com a energia de quem tinha dormido uma bela noite de sono. As bandas sonoras que nos entretiam ao longo de muitas horas seguidas de carro. O explorar descomplicado dos limites das nossas zonas de conforto. O caminhar em direcção ao desconhecido, sem planos traçados, nem horários rígidos, com a total liberdade de ir desvendando o caminho. As visitas a todas as igrejas que apareciam pelo caminho, sempre a agradecer pelas oportunidades extraordinárias com que éramos presenteadas. As paisagens fantásticas que os nossos pais nos ensinaram a admirar. O viver o presente no tempo certo, sem estar com preocupações projectadas para o futuro, nem a remoer um passado que já não é possível mudar. E, sobretudo, a certeza e o conforto de ter ali comigo e a viver aquele presente quatro das pessoas mais importantes da minha vida. O tempo que os meus pais investiram nestes momentos é das maiores lições e das maiores dádivas que alguma vez podiam ter dado.

A vida foi-me ensinando que o tempo que passamos com os outros, não é um “gasto”, mas sim um investimento e a memória destes momentos reforça esta ideia. Só é possível cimentar relações conhecendo a outra pessoa e, para isso, temos que nos dispor a utilizar o nosso tempo para tal. Num mundo em que, muitas vezes, parece que não somos mais que pequenas formiguinhas a correr de um lado para o outro atarefadas, oferecer o nosso tempo a alguém é uma dádiva preciosa e um exercício de altruísmo.  A verdade é que, na vida de relação, sempre que nos arriscamos a semear, colhemos algo. Pode não ser no tempo que esperamos, nem na forma como pensamos. O mais importante acaba por ser ir fazendo caminho e aproveitando estes momentos e estas companhias que ele nos oferece, explorando ao máximo o infinito temporal que se esconde nestes gerúndios temporais.

“Tempo a gente tem
Quanto a gente dá
Corre o que correr
Custa o que custar”

{Rodrigo Amarante}

Conta as Estrelas do Céu

Na segunda-feira aproveitei uma longa conversa ao telefone para me deitar no chão do quarto com a cabeça para a varanda, a olhar para o céu. Numa primeira olhadela apenas se evidenciaram as luzes dos aviões. Mas tinha tempo, até estava uma noite confortável, com um vento morno, por isso, deixei-me estar a contemplar mais um pouco. Com o habituar dos olhos à escuridão, foi-se tornando evidente que, mesmo num ambiente repleto de poluição luminosa, consigo encontrar um céu estrelado. A única condição necessária para isso é de parar e dar tempo para que o aparente invisível se torne visível aos meus olhos. É impossível não continuar com um paralelismo para a minha vida e pensar na imensidão de coisas que me passam despercebidas, só porque vou demasiado rápido e me descuido na minha capacidade de admirar o que me rodeia. Ou nas inúmeras vezes que me deixo começar afundar numa espiral de negativismo e me esqueço de ir à procura destes pequenos e subtis pontos luminosos. Olhar para o céu e procurar estrelas ajuda a sonhar com a liberdade total de um pássaro, sem pensar em problemas nem contratempos, com toda a esperança e confiança do mundo.

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Nascer todas as Manhãs

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Apesar da idade, não me acostumar à vida. Vivê-la até ao derradeiro suspiro de credo na boca. Sempre pela primeira vez, com a mesma apetência, o mesmo espanto, a mesma aflição. Não consentir que ela se banalize nos sentidos e no entendimento. Esquecer em cada poente o do dia anterior. Saborear os frutos do quotidiano sem ter o gosto deles na memória. Nascer todas as manhãs.

Miguel Torga, in “Diário (1982)”