Love is all around

Tenho alguma tendência para ter crises de espirros. Num desses episódios na Colômbia, o guia com quem estávamos ensinou-nos que, quando era só um diziam o tradicional “saúde”, ao segundo dizia-se “dinheiro” e o terceiro vinha com “amor”. Curiosamente, os episódios seguintes pararam todos no segundo, levando-me comentar rápida e precipitadamente “Onde anda o amor?”. O nosso guia apressou-se a explicar que não precisava, já tinha muito na minha vida, deixando-me completamente desarmada perante o meu olhar (por vezes) embaciado em relação à vida. Em viagem com as minhas irmãs, o meu porto de abrigo e companhia perfeita, penso que era claro para quem se cruzava connosco, que amor não faltava. Contudo, fiquei a pensar como tantas vezes andamos de alguma forma distraídos a procurar amor, sem nos apercebermos como a vida já nos oferece tanto, de formas muito variadas. Procuramos reconhecimento no nosso local de trabalho, procuramos sentir aceitação nos nossos círculos de amizade, procuramos uma relação de intimidade e proximidade que nos acompanhe ao longo da vida, procuramos sentir que a vida que nos acarinha… Sentimos necessidade de “sentir” esse amor, sem por vezes parar e tomar consciência de quanto já temos. E ele existe de formas muito variadas, todas elas muito válidas. Começa, normalmente, pelo nosso berço, na forma como a nossa família nos acarinha e nos acompanha, na forma como serve de base e trampolim. Pode estar presente na natureza, numa doce e suave brisa, num por do sol de cores quente, ou nas noites escuras e estrelados. Pode-se manifestar em sorrisos anónimos no meio do frenesim diário, em conversas acesas com amigos ou quando partilhamos momentos especiais com pessoas especiais. Tenho a certeza que, se estivermos atentos, não há dia que passe sem que o universo se encarregue de nos oferecer em algum momento alguma forma de amor. O essencial é limparmos o olhar de máscaras e aprendermos a ver para além das primeiras impressões, despertarmos a visão e o sentir para as subtilezas da vida. Quando fizermos disso um exercício rotineiro, vamos perceber que na verdade estamos rodeados por amor e estaremos preparados para abraçá-lo cada vez mais, para o reconhecermos cada vez melhor.

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Amar um mundo perfeitamente imperfeito

“He looked around, as if he was seeing the world for the first time. Beautiful was the world, colourful was the world, strange and mysterious was the world! Here was blue, here was yellow, here was green, the sky and the river flowed, the forest and the mountains were rigid, all of it was beautiful, all of it was mysterious and magical, and in its midst was he, Siddhartha, the awakening one, on the path to himself.”

{Hermann Hesse, Siddhartha}

Contrariar a ferocidade dos dias

Desde que o tempo é tempo, que o dia tem 24h, cada hora 60 minutos e cada minuto 60 segundos. No entanto, parece que com a idade vamos perdendo a capacidade de saborear plenamente toda esta realidade na sua verdadeira extensão. Vamos sendo contagiados pela ferocidade que o mundo actual e o seu fascínio pela produtividade económica nos impõem, ficando perdidos no meio de correrias, numa sucessão de aconteceres que deixamos irem-se desenrolando. Perdemos o agora numa tentativa inglória de prepararmos o melhor possível a vida que projectamos para um outro amanhã, que se projecta sempre cada vez mais longe.

Tenho vindo a aperceber-me que esta ferocidade me tem consumido um pouco, me vai roubando a capacidade de me maravilhar com o extraordinário no ordinário e me torna impaciente, incapaz de respeitar os ritmos naturais da vida. A melhor maneira de contrariar esta tendência é através do despertar dos sentidos para a beleza do que me rodeia. Sento-me ao fim do dia na varanda e deixo que os suaves pores do sol de verão me ensinem qual a verdadeira velocidade que deve reger a minha vida, a velocidade que me permite abrir os olhos à contemplação e à acção de graças, a velocidade que me permite saborear o momento do agora, esperando serenamente pelo momento seguinte.

“Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus” 

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Toda a esperança num ponto de Luz

Este ano tive o privilégio de poder contemplar diferentes céus estrelados: 6 países, 3 continentes, 2 oceanos… Sempre que me permiti admirar a escuridão da noite, acabei por me deixar preencher pela consciência da pequenez dos meus problemas, das minhas dúvidas ou ansiedades, em contraste com a grandiosidade do infinito dos céus. Aperceber-me que para o céu também eu sou um ínfimo ponto de luz, mas que mesmo assim sou parte integrante deste cosmos, afasta-me dos pensamentos negativos centrados nos meus problemas e preenche-me de uma gratidão imensa por tudo aquilo que sou e tenho.

Acabei a semana passada a desafiar-me em algo que nunca tinha experimentado, um trail nocturno. A corrida tem-me ajudado a exercitar o trabalho por objectivos: decido que vou correr x km e, portanto, independentemente das dificuldades que possa sentir, se traço isso como objectivo, vou ter que o alcançar, desistir não é opção. Tive a sorte de ser noite e da escuridão das montanhas pôr em destaque um céu deslumbrante. E, por isso, esta “simples” corrida acabou por se transformar não só na exploração dos limites da minha resistência, mas também num exercício de acção de graças. Para mim, olhar para o céu e admirar cada ponto luminoso é lembrar-me da presença constante de Alguém bem maior que eu e é encher-me da certeza que tudo aquilo que está para vir certamente é bom. E, com esta consciência, não há limites àquilo que eu possa alcançar.

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Conta as Estrelas do Céu

Na segunda-feira aproveitei uma longa conversa ao telefone para me deitar no chão do quarto com a cabeça para a varanda, a olhar para o céu. Numa primeira olhadela apenas se evidenciaram as luzes dos aviões. Mas tinha tempo, até estava uma noite confortável, com um vento morno, por isso, deixei-me estar a contemplar mais um pouco. Com o habituar dos olhos à escuridão, foi-se tornando evidente que, mesmo num ambiente repleto de poluição luminosa, consigo encontrar um céu estrelado. A única condição necessária para isso é de parar e dar tempo para que o aparente invisível se torne visível aos meus olhos. É impossível não continuar com um paralelismo para a minha vida e pensar na imensidão de coisas que me passam despercebidas, só porque vou demasiado rápido e me descuido na minha capacidade de admirar o que me rodeia. Ou nas inúmeras vezes que me deixo começar afundar numa espiral de negativismo e me esqueço de ir à procura destes pequenos e subtis pontos luminosos. Olhar para o céu e procurar estrelas ajuda a sonhar com a liberdade total de um pássaro, sem pensar em problemas nem contratempos, com toda a esperança e confiança do mundo.

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Nascer todas as Manhãs

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Apesar da idade, não me acostumar à vida. Vivê-la até ao derradeiro suspiro de credo na boca. Sempre pela primeira vez, com a mesma apetência, o mesmo espanto, a mesma aflição. Não consentir que ela se banalize nos sentidos e no entendimento. Esquecer em cada poente o do dia anterior. Saborear os frutos do quotidiano sem ter o gosto deles na memória. Nascer todas as manhãs.

Miguel Torga, in “Diário (1982)”

Chamar a Si Todo o Céu com um Sorriso

que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos

que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens

e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso

E. E. Cummings, in “livrodepoemas”
Tradução de Cecília Rego Pinheiro

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It’s all so quiet… …

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Os amanheceres de Outono são lentos e pacíficos. No céu as tonalidades escuras calmamente são substituídas por cores mais quentes, mas serenas. Os raios de sol rompem a neblina matinal, difundindo-se em todas as direcções. A névoa envolve e aconchega o solo. A aragem arrasta consigo folhas douradas de árvores já mais fatigadas. Um bando de pássaros serpenteia pelo firmamento, distante a todo o reboliço que se começa a montar cá em baixo. E eu deixo-me inundar por uma imperativa sensação de tranquilidade.

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Bolo de Cenoura com Amêndoas Caramelizadas

Se tivesse que escolher um único livro de cozinha, provavelmente seria o The New Classics da Donna Hay. A composição fotográfica está fantástica, não há receita que não queira experimentar. Para além disso, à semelhança dos restantes livros desta autora, são maioritariamente pratos com uma lista de ingrdientes não muito extensa e cuja elaboração não envolve mil-e-um passos, o que se torna bastante atrativo no dia-a-dia. Como, neste momento, parar de trabalhar um ano para fazer todas as receitas não é algo muito concretizável (infelizmente), decidi começar pelo bolo de cenoura, um dos meus favoritos. A cenoura dá uma humidade equilibrada aos bolos, sem se fazer sobressair no sabor. A cobertura fofa com um toque de limão é o complemento perfeito para tornar esta receita mais leve e para fazer uma transição harmoniosa entre a “conforto food” do inverno e os sabores delicados do verão. Sem dúvida, uma receita fantástica para estes dias.

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Bolo de Cenoura com Amêndoas Caramelizadas

Donna Hay, The New Classics

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Bolo: 300g farinha, 1 c. chá fermento, 1 c. chá canela, 1 c. chá gengibre, 1/2 c. chá noz moscada, 4 ovos, 100 mL óleo de girassol, 1 c. chá extracto baunilha, 360g cenoura ralada, 100g sultanas, 100g amêndoas em palitos

Cobertura: 50g manteiga, 250g queijo creme, 1 cháv. açúcar de pasteleiro, 1 c. sopa sumo de limão

Amêndoas caramelizadas: 120g amêndoas, 1/2 cháv. açúcar, 1 c. sopa água

  • Começar pelas amêndoas. Colocar os ingredientes numa frigideira anti-aderente, combinar e levar a lume médio. Misturar ocasionalmente, até caramelizar. Colocar numa folha de papel vegetal, deixar arrefecer e partir grosseiramente.
  • Pré-aquecer o forno a 180ºC e forrar uma forma com papel vegetal.
  • Combinar a farinha, fermento, canela, gengibre, noz moscada e açúcar.
  • À parte, bater os ovos com o óleo e baunilha. Juntar a mistura de farinha e misturar até estar bem combinado. Adicionar a cenoura, as sultanas e as amêndoas.
  • Verter a massa na forma e levar ao forno durante 30-40 min. Deixar arrefecer 5 min antes de desenformar.
  • Para a cobertura, bater a manteiga com o queijo até ficar uma mistura cremosa. Juntar o açúcar e bater novamente até ficar fofo. Adicionar o sumo de limão e bater mais 2 min.
  • Espalhar a cobertura sobre o bolo completamente frio e colocar no topo as amêndoas caramelizadas.

Bom apetite!!

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