Contrariar a ferocidade dos dias

Desde que o tempo é tempo, que o dia tem 24h, cada hora 60 minutos e cada minuto 60 segundos. No entanto, parece que com a idade vamos perdendo a capacidade de saborear plenamente toda esta realidade na sua verdadeira extensão. Vamos sendo contagiados pela ferocidade que o mundo actual e o seu fascínio pela produtividade económica nos impõem, ficando perdidos no meio de correrias, numa sucessão de aconteceres que deixamos irem-se desenrolando. Perdemos o agora numa tentativa inglória de prepararmos o melhor possível a vida que projectamos para um outro amanhã, que se projecta sempre cada vez mais longe.

Tenho vindo a aperceber-me que esta ferocidade me tem consumido um pouco, me vai roubando a capacidade de me maravilhar com o extraordinário no ordinário e me torna impaciente, incapaz de respeitar os ritmos naturais da vida. A melhor maneira de contrariar esta tendência é através do despertar dos sentidos para a beleza do que me rodeia. Sento-me ao fim do dia na varanda e deixo que os suaves pores do sol de verão me ensinem qual a verdadeira velocidade que deve reger a minha vida, a velocidade que me permite abrir os olhos à contemplação e à acção de graças, a velocidade que me permite saborear o momento do agora, esperando serenamente pelo momento seguinte.

“Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus” 

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Toda a esperança num ponto de Luz

Este ano tive o privilégio de poder contemplar diferentes céus estrelados: 6 países, 3 continentes, 2 oceanos… Sempre que me permiti admirar a escuridão da noite, acabei por me deixar preencher pela consciência da pequenez dos meus problemas, das minhas dúvidas ou ansiedades, em contraste com a grandiosidade do infinito dos céus. Aperceber-me que para o céu também eu sou um ínfimo ponto de luz, mas que mesmo assim sou parte integrante deste cosmos, afasta-me dos pensamentos negativos centrados nos meus problemas e preenche-me de uma gratidão imensa por tudo aquilo que sou e tenho.

Acabei a semana passada a desafiar-me em algo que nunca tinha experimentado, um trail nocturno. A corrida tem-me ajudado a exercitar o trabalho por objectivos: decido que vou correr x km e, portanto, independentemente das dificuldades que possa sentir, se traço isso como objectivo, vou ter que o alcançar, desistir não é opção. Tive a sorte de ser noite e da escuridão das montanhas pôr em destaque um céu deslumbrante. E, por isso, esta “simples” corrida acabou por se transformar não só na exploração dos limites da minha resistência, mas também num exercício de acção de graças. Para mim, olhar para o céu e admirar cada ponto luminoso é lembrar-me da presença constante de Alguém bem maior que eu e é encher-me da certeza que tudo aquilo que está para vir certamente é bom. E, com esta consciência, não há limites àquilo que eu possa alcançar.

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Conta as Estrelas do Céu

Na segunda-feira aproveitei uma longa conversa ao telefone para me deitar no chão do quarto com a cabeça para a varanda, a olhar para o céu. Numa primeira olhadela apenas se evidenciaram as luzes dos aviões. Mas tinha tempo, até estava uma noite confortável, com um vento morno, por isso, deixei-me estar a contemplar mais um pouco. Com o habituar dos olhos à escuridão, foi-se tornando evidente que, mesmo num ambiente repleto de poluição luminosa, consigo encontrar um céu estrelado. A única condição necessária para isso é de parar e dar tempo para que o aparente invisível se torne visível aos meus olhos. É impossível não continuar com um paralelismo para a minha vida e pensar na imensidão de coisas que me passam despercebidas, só porque vou demasiado rápido e me descuido na minha capacidade de admirar o que me rodeia. Ou nas inúmeras vezes que me deixo começar afundar numa espiral de negativismo e me esqueço de ir à procura destes pequenos e subtis pontos luminosos. Olhar para o céu e procurar estrelas ajuda a sonhar com a liberdade total de um pássaro, sem pensar em problemas nem contratempos, com toda a esperança e confiança do mundo.

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Nascer todas as Manhãs

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Apesar da idade, não me acostumar à vida. Vivê-la até ao derradeiro suspiro de credo na boca. Sempre pela primeira vez, com a mesma apetência, o mesmo espanto, a mesma aflição. Não consentir que ela se banalize nos sentidos e no entendimento. Esquecer em cada poente o do dia anterior. Saborear os frutos do quotidiano sem ter o gosto deles na memória. Nascer todas as manhãs.

Miguel Torga, in “Diário (1982)”

Chamar a Si Todo o Céu com um Sorriso

que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos

que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens

e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso

E. E. Cummings, in “livrodepoemas”
Tradução de Cecília Rego Pinheiro

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It’s all so quiet… …

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Os amanheceres de Outono são lentos e pacíficos. No céu as tonalidades escuras calmamente são substituídas por cores mais quentes, mas serenas. Os raios de sol rompem a neblina matinal, difundindo-se em todas as direcções. A névoa envolve e aconchega o solo. A aragem arrasta consigo folhas douradas de árvores já mais fatigadas. Um bando de pássaros serpenteia pelo firmamento, distante a todo o reboliço que se começa a montar cá em baixo. E eu deixo-me inundar por uma imperativa sensação de tranquilidade.

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