Perpétuo Movimento

É interessante a experiência de estar parado enquanto tudo à nossa volta é movimento. Sentada numa cadeira de aeroporto, à espera de um voo de ligação, ocupei parte do meu tempo a analisar esta dinâmica. Um corropio de pessoas foi-se movendo à minha frente: algumas com um destino claramente definido, outras com um ar mais perdido; algumas a alta velocidade, outras com um passo mais lento; umas com expressão de felicidade e tranquilidade, outras parecendo mais ansiosas e preocupadas. Mantive-me quieta, meia imune a todo este frenesim, mas apreciando-o. Há alturas em que a vida nos pede muita actividade e muito movimento. Há alturas em que a vida nos consome o tempo e avança a alta velocidade. E há outros momentos em que nos convida a estar mais resguardados, a saborear internamente o desenrolar do tempo, em atitude de contemplação e de reorganização interior. E todos estes momentos compõe a maravilha que é viver, tanto os momentos de reboliço, como os de tranquilidade. Tanto os momentos de certezas bem definidas, como aqueles tão indefinidos que parecem pintar um arco-íris de cinzentos. Tanto os momentos em que o nosso coração saltita de alegria e energia, como os momentos em que somos habitados por uma nuvem negra. A única certeza que nos pode servir de guia é que a vida se move por ondas e tudo passa, só precisamos de a deixar desenrolar-se, respeitando a velocidade certa de cada momento.

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Tempo, tempo, tempo

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Guardo com algum saudosismo a memória das nossas férias passadas em família pela Europa fora. As saídas de madrugada, ainda bem antes do sol se levantar, mas com a energia de quem tinha dormido uma bela noite de sono. As bandas sonoras que nos entretiam ao longo de muitas horas seguidas de carro. O explorar descomplicado dos limites das nossas zonas de conforto. O caminhar em direcção ao desconhecido, sem planos traçados, nem horários rígidos, com a total liberdade de ir desvendando o caminho. As visitas a todas as igrejas que apareciam pelo caminho, sempre a agradecer pelas oportunidades extraordinárias com que éramos presenteadas. As paisagens fantásticas que os nossos pais nos ensinaram a admirar. O viver o presente no tempo certo, sem estar com preocupações projectadas para o futuro, nem a remoer um passado que já não é possível mudar. E, sobretudo, a certeza e o conforto de ter ali comigo e a viver aquele presente quatro das pessoas mais importantes da minha vida. O tempo que os meus pais investiram nestes momentos é das maiores lições e das maiores dádivas que alguma vez podiam ter dado.

A vida foi-me ensinando que o tempo que passamos com os outros, não é um “gasto”, mas sim um investimento e a memória destes momentos reforça esta ideia. Só é possível cimentar relações conhecendo a outra pessoa e, para isso, temos que nos dispor a utilizar o nosso tempo para tal. Num mundo em que, muitas vezes, parece que não somos mais que pequenas formiguinhas a correr de um lado para o outro atarefadas, oferecer o nosso tempo a alguém é uma dádiva preciosa e um exercício de altruísmo.  A verdade é que, na vida de relação, sempre que nos arriscamos a semear, colhemos algo. Pode não ser no tempo que esperamos, nem na forma como pensamos. O mais importante acaba por ser ir fazendo caminho e aproveitando estes momentos e estas companhias que ele nos oferece, explorando ao máximo o infinito temporal que se esconde nestes gerúndios temporais.

“Tempo a gente tem
Quanto a gente dá
Corre o que correr
Custa o que custar”

{Rodrigo Amarante}